9 de agosto de 2011

Mancebia

minha mancebia,
amásia ilícita: Natureza,
dar-me-á crescente prazer

natureza-símbolo,
formas das formas:
esta cerejeira-azeda,
de natureza distintiva
qual flor, és meu símbolo!
teu rosa, fonte de árduo verso
matiz clara, abstração de melancolia

joga-me entre seus ramos, efêmera flor
entre suas pétalas tristonhas passe-me, entre-me!
endureça seus deliciosos e murchos e róseos ovários!
espeta-me com teus filetes, encha tuas anteras e alimente-me!

pós-gozo: tranquilidade da tranquilidade;
senti-lo: tranquilidade incandescente;
pensá-lo: luminosidade tranquila!

Um comentário:

Anônimo disse...

Amor ilícito, Natureza e prazer. Um amor irresumível moralmente, mas que busca saciar um desejo. Vejo a cerejeira-azeda como espécie de síntese dos três primeiros elementos.
Rosa de árduo verso, clara, mas, melancolia abstraída. Agora é sobre o símbolo da síntese que recai a ambivalência da mancebia: é plena, mas cheia de tristeza também.
Mas o eu-lírico quer cair entre os ramos agridoces, entre a vida e a não vida (nos ovários deliciosos e murchos). Ele quer se alimentar, ou, é apenas disso que pode se alimentar, das espetadas dos filetes e da nutritiva antera (de novo a dor e o bem).
E, apesar da ambivalência desta cerejeira (materialização da mancebia) há o pós-gozo, em si, sentido e pensado. As ações concretas que se relacionam com ele (sentir e pensar) se enchem de luminosidade. E, cheias de luminosidade alcançam as luzes da Idéia.
Talvez possa ter duas leituras: uma idealizante, outra como consciência empírica dos limites do amor carnal. Achei a linguagem levemente trágica, e o róseo bem trabalhado: nos momentos de deleite tende para o branco, nos de melancolia, para o sangue.