meu fito de vida é a ação do fitar. observar é minha missão, meu ofício. antes de tudo: é minha essência. pois me fizeram de pinceladas para realizá-la, realizar meu fito. vejo outros, mas não me vejo, não me fito, não sei minha forma... quisera eu ao menos saber o que é forma! não sei se sou macho, fêmea, homem, mulher. não sei se tenho mãos finas ou gordas, dedos longos ou curtos... quisera eu saber o que são braços, dedos, macho, fêmea! não sei se meus tons e traços são claros e marcantes, fortes e asquerosos, ou grosseiros. quisera eu saber o que são adjetivos... formas, traços, tons!
eis minha certeza: a partir de meus observadores, vivo. cito agora as reproduções discursivas alheias, reações alheias; cito, pois não sei figurar. sou as reações daqueles que me fitam, me analisam... daqueles que tentam me descrever, estereotipar, tipificar.
uns mal me fitam: passam, ignoram, e saem murmurando a outros: “vamos”... e como isto ouço! mas, o que significa: “vamos”? é palavra? “vamos”... é braço, dedo, forma, tom, macho, fêmea? outros tentam fazer o mesmo que eu: observar. fazem algo estranho com a parte mais alta do corpo... será que eu, também ao observar, faço mesma posição? murmuram mais: “para mim, é impressionista... mulher nua e não-magra... é belo!” impressionista... seria palavra? o que seria a tal da “belo”? o que mais ouço: “belo”. é palavra? braço, dedo, forma, tom, macho, fêmea?
uns desses amigos fitadores vinha me fitar muitas vezes. eu diria todos os dias, se tivesse tamanha noção do tempo! (não me pintaram um relógio...) muitas vezes, do meu lado oposto, com a aparência sempre esplanada, corpo turvo e límpido, de tons levemente amarelados, “cor-de-pele”, é o que dizem. vinha apenas me fitar, e fazia um movimento estranho de esticar a parte do corpo que abre e fecha ao me contar seus segredos. me contou uma vez que eu lembrava um “pintura impressionista”. o que é isto, impressionista? não sei. deve ser “belo”, pela maneira do fitar e do esticamento... “uma vez li um conto da lygia fagundes telles em que um homem ia todos os dias à uma loja de antiguidades apenas para fitar uma tapeçaria velha, caindo aos pedaços, na qual havia uma pintura de um caçador numa floresta, e um homem em segundo plano parado em meio às árvores, observando o caçador... o homem, ao ver a tapeçaria, se sentia estranho, como se aquela cena lhe fosse familiar... até que um dia ele foi como de costume olhar a peça, quando se viu dentro dela... é o que eu gostaria: venho lhe ver todos os dias, pois quero me ver dentro destes tons tão leves e doces... quero ver-te mais de perto, te ver além de rósea musa”. não apreendi nenhum som que saía dele, mas acho que fiz o mesmo esticamento com a parte do rosto em que meu fitador esticava, pois senti meus tons róseos do corpo ficarem mais quentes. quis murmurar, também, de volta... “o que é musa? e fêmea, ou macho: quê sou?” queria ser fêmea... “fêmea” parece ser mais “belo”, e pela minha experiência nesse lugar parece ser algo que atrai mais fitadores. por algum motivo, algumas vezes me sinto mais branca, o que acho que quer dizer estar mais próxima do “vamos”... mas, ao ouvir este “vamos”, me sinto perder o “tom”, o “belo”. outra vez ouvi “parece que a moça vai morrer”... acho que me sinto próxima deste som, agora. mas, o que é isto? "moça-morrer”... tá do lado do “belo”, do lado do “vamos”?
só que dessa vez ouvi: “tapeçaria velha, caindo aos pedaços”. mas gosto dessa coisa, "velha". carrega objetividade, me tirando dessa condição de objeto. me faz matizar num não-sei-quê. talvez "sabedoria", como ouvi antes - e soa bem. e essa coisa de "sabedoria" anda me tomando ultimamente. porque hoje não só mais fito, aprendo a descrever figuras, amarrando laços de fita nas cabeças de quem passa.
3 comentários:
Que eu poderia dizer? É prosa de um coração incerto, rígido e caótico...mas é tudo tão bonito e vivo...
Lindo.
Ótimo, Vanessa!
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