25 de março de 2012

fuga


ao sair do torto tempo
de uma estrela azul ao vento
me desvio da vida em terra,
e me abaixo os pés ao chão
vejo a rua, o ponto de ônibus,
as cabeças, passos nunes,
tão pequenos de antemão

mas na vida aqui me vejo
tão enferma de sobejo,
tão somente em quem suplica,
tão amarga e sem ensejo,
que um só-beijo não medica.
pois num vento de infinito
eu me evolo em desaflito...

vou subindo em nuas passadas
por cabeças desfocadas,
a calçada, as sãs palmeiras...
vejo os nove negros Alpes,
vejo os gritos e o estilhaço
da fervura imaculada
do ambiente inabitado...
no exaltar do panorama,
meu amor, densa estação,
algodões distantes, nuvens
tão esparsas e sem chama...
amo o meu céu de verão.

nesta hora fotografo,
mas a câmera inconcebe
esta cena: o vôo livre:
ao subir eu vejo o astro,
toque da lua umedece
os dez dedos das mãos flácidas,
a gravidade me desce
ao lajedo não mais plácido.

a queda livre me toma
ao abismo do retorno
e do drible que me toca
no bairrismo sem adorno...

a realidade em veredas
me refaz em novas raízes
e desfaz velha alameda...

fim, me vejo: um caracol
numa folha de palavras

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