27 de outubro de 2014

para um poema de marília garcia

na escola sempre passa pelo bonequinho do homem aranha localizado num espaço improvável pensa é o engano geográfico da marília inspira isso dá um poema diz ele nunca vai me atingir ao contrário daquele poema sylvia plath diz nunca vão tirar isso daí? faz semana já atou a cabeça ali falam aqueles espacinhos dolorosos entre os dedos the spider men have caught me

29 de maio de 2014

pateo do collegio
um grupo de pessoas
[incluindo eu]
discute arquitetura clássica

[a cabeça de hermes no que acho que era o tribunal da alçada civil
- o que quer que isso seja -
mas que antigamente bem poderia ter sido algo como a casa da moeda]

enquanto
atrás do sr. palestrante
uma tela de luz dizendo o imposto
um número que só crescia


o deus não tem olhos
mas também não sorri

10 de novembro de 2013

da tradução literal (à feist & howard nemerov)

"ó andorinhas, andorinhas, poemas
não são o ponto"
o howard mandou a nota
em "as andorinhas azuis"

a feist respondeu
"tomou um longo vento"
talvez inconscientemente --

"bom dia
andorinha"

-- porque é assim
quando não há mais
poesia
o que há é
um encontro
ou
um papagaio triste

e às vezes
repetindo lágrima
me encontro --
a mente dos meus olhos cegospois
não estou realmente
no encontro
(não sou feist nem howard, na verdade, nem canadense sou)

enfim
meus olhos se
tingem de
azul
e por ser
azul
começam não a cantar
mas a gritar
-- simulacrar
ou repetir
& sei lá --
andorinhas

porque o importante é
em qualquer ferimento
ou lacre de carta
estudo ou
o que for
,
a gente costura ou
ata + rasga + responde
pele ou
pena ou
sonho ou
orgulho ou
prova de escola

tudo isso
por causa de que poemas
nunca darão
ponto

10 de julho de 2013

sylvia plath e ted hughes brigando na barraca de frutas

todo conflito
é
1
semicírculo

é como uma lápide
a conversa rondando em ondas temperadas em ponteiros de tempo
. as desculpas sondando num gás pra dentro de si mesmas
, até encontrar
o corte vazio
invisível, porém cheiroso
um abismo uma lobotomia uma pêra sendo assada
todas as perfurações quentes da mente que não dão para enfiar o fura-bolos pra saber se o final tem o gosto doce e aguado da fruta

3 de março de 2013

intertexto


quis trafegar em outras ondas:
inventei um mar
e me afoguei
sem saber o tempo
de me lançar

quis ficar num cais:
caí num trilho d'água
e naufraguei
soltando o vapor de ferro
de palavra nenhuma

quis mendigar em outros supermercados
comprar novas imagens:
me enclausurei
pois era um mar de mofo

inventei meus mantimentos
fracos, mas orgânicos
e pude me compor à caneta

6 de fevereiro de 2013

invenção do tempo (and indeed there will be time)


lá, em nosso púlpito divino,
ficamos à espera
dos trens não embarcados
dos braços que não se arrancam
da terra que o tempo nos comeu;
deuses-tigres, enrugados e banguelas
fincamos peles e dentes
em nossa maior dádiva:
um adeus 5 minutos adiantado

aqui, em nosso útero fino,
esculpimos os pêssegos já comidos
e penteamos os cabelos para trás;
aqui, nos rasgamos na eternidade das linhas
nos universos já perturbados
pelos jovens que ouvem falar de Roberto Piva;
aqui, há minutos e minutos
de revisões revertidas por outros minutos,
cada uma delas assumidas por todos os Outros...

aqui e ali
somos nós
quem apara as garras dos leões

27 de novembro de 2012

no túmulo de sylvia plath

o velho pesca
nesta lama

varinha em punho
para manter

ressuscitando
peixes-múmias



e eu sou a lótus dourada
entre as chamas violentas
ao seu lado

armas em punho
para florescer

10 de novembro de 2012

adamastor


no imenso
salíneo,

meu gesto
modesto:

atravessar sem nau
as Gamas deste Símbolo,

sem Grupo ou objetivo
que não fosse lírico:

me serrar quieta no sal
de conchas infinitas...

lutar pelo que destrói,
havendo deveras sentido

buscar ser herói,
sendo apenas vencido

3 de setembro de 2012

dente-de-leão


há um oceano entre nós:
mas, sobre o abismo incolor,
vou destruindo janelas
e estrangulante, esta flor

com seus dentes esvoaçantes
com seus chapéus de sãs pétalas
ata-me em seu branco cais:
meus pensamentos que, presos

em seus crustáceos de caules,
paralizam, e com serpentes
minha aura petrificam---
maresias, muráleas, cérebro

entre suas garras me prendo
a minha mente voando
no meu vil contentamento
de, coagulada, fluir-me

em decifrar-te, devoro-me
de raciocínios e alentos:
meu pensamento entre pétalas
esvaecendo pelos ventos

30 de julho de 2012

gato


nesse útero seco, no mundo,
no atravessar de linhas gastas,
cuidadosos passos não ferem

os lírios róseos
que agora brotam
destes meus pés

o queixo paralelo ao tronco:
a elipse azul e seca cega,
faz um afago imenso e fino
de uma mãe em sala de parto.

em corpo felino, em eixos,
subo este telhado de manta
sob o brilho dourado que canta –
luz loura é quem dá meu aleito:

um sol de pelos no  meu peito
e os batimentos na garganta.

16 de julho de 2012

pó branco


o açúcar em pó
faz fome e faz greve
a coca faz pó
e em neve um cognome

a cal, pó de cálcio,
faz prédio, faz chão,
e pode onde calço
calçar meu caixão

e todos são brancos,
e todos impuros:
dos bancos aos sancos,
das aves aos juros,
do açúcar ao sal...
meu mundo atacado
de doce e salgado
na cor irreal.

11 de julho de 2012

ida/vinda


eu, já sardinha, me atiro do cais...
na boca agora do animal de sais
dobro-me, rolo-me, faço-me pão
do peixe-metal... oral profusão...

eis que já vejo um céu azul da boca
e a dentição em edifícios rouca...
torções em solavancos: des-fast-io:
os dentes que eclodem em espiral

na matinal des-atmosfera, céu
de que me leva em linhas retas, trilhos
e prédios esculpidos de estribilho
de cálcio destorcido (solidéu)

que de uma abóboda retorcem sólidos
até chegar a uma estação final...
para um retorno em paz  ser um insólito
em que um caminho avesso é habitual:

céu de uma boca noturna, crepúsculo
tropeçar dental que se faz gradual...
trilhas que seguem e caem: desatino-me
a estas portas, vãos, a esta espera tal...

hora de abrir, estação... regurgito-me

25 de março de 2012

fuga


ao sair do torto tempo
de uma estrela azul ao vento
me desvio da vida em terra,
e me abaixo os pés ao chão
vejo a rua, o ponto de ônibus,
as cabeças, passos nunes,
tão pequenos de antemão

mas na vida aqui me vejo
tão enferma de sobejo,
tão somente em quem suplica,
tão amarga e sem ensejo,
que um só-beijo não medica.
pois num vento de infinito
eu me evolo em desaflito...

vou subindo em nuas passadas
por cabeças desfocadas,
a calçada, as sãs palmeiras...
vejo os nove negros Alpes,
vejo os gritos e o estilhaço
da fervura imaculada
do ambiente inabitado...
no exaltar do panorama,
meu amor, densa estação,
algodões distantes, nuvens
tão esparsas e sem chama...
amo o meu céu de verão.

nesta hora fotografo,
mas a câmera inconcebe
esta cena: o vôo livre:
ao subir eu vejo o astro,
toque da lua umedece
os dez dedos das mãos flácidas,
a gravidade me desce
ao lajedo não mais plácido.

a queda livre me toma
ao abismo do retorno
e do drible que me toca
no bairrismo sem adorno...

a realidade em veredas
me refaz em novas raízes
e desfaz velha alameda...

fim, me vejo: um caracol
numa folha de palavras

3 de setembro de 2011

canavãs

no onírico espelho, turva de visão
um espelho: onírica câmera, vídeo
                   de visão burca: câmera
                   de visão cubra: boca

uma boca arreganhada ao espelho
luz de visível única ao visualizável
                             à câmera ocular
                             ao plano onírico:
                             planos divisíveis!

aos planos de-visíveis de meu espanto:
a boca cheia d'água desde a garganta
os dentes: bases frementes dos caules
plantas dentais! marginais, flutuantes, cana-vãs:
boca angiospérmica à luz, fremilúcilo.

rendo-me aos caules dos dentes-vegetais
aos solavancos dos talos dentais, bucais
flores pulverizam lago esofagal...

de abelhas e besouros inexistente
aglomerado pólen em veias, bolor:
meu entupidor faríngeo!
de paulatino sofrimento, ex-vaneço
no difícil prover-se... ex-pirante...

arranca-me ar, pele, traqueia, pulmão
faça-me malabar, gargântua, canavã
do processo contínuo da vilta essencial
                                  da progressão Natural
                                  d'entalar de garganta!

ao banal não-sustento de vida carnal,
à Natureza-Boca que in-avança,
elevo-me aos Parnasos, limite vital...
ao último monte de imagem
ao último plano de-visível
ao ensaio fílmico do In-ex-isto:
leveza que se mantém... ex-piro...

23 de agosto de 2011

arte poética para tapeçarias

meu fito de vida é a ação do fitar. observar é minha missão, meu ofício. antes de tudo: é minha essência. pois me fizeram de pinceladas para realizá-la, realizar meu fito. vejo outros, mas não me vejo, não me fito, não sei minha forma... quisera eu ao menos saber o que é forma! não sei se sou macho, fêmea, homem, mulher. não sei se tenho mãos finas ou gordas, dedos longos ou curtos... quisera eu saber o que são braços, dedos, macho, fêmea! não sei se meus tons e traços são claros e marcantes, fortes e asquerosos, ou grosseiros. quisera eu saber o que são adjetivos... formas, traços, tons!
eis minha certeza: a partir de meus observadores, vivo. cito agora as reproduções discursivas alheias, reações alheias; cito, pois não sei figurar. sou as reações daqueles que me fitam, me analisam... daqueles que tentam me descrever, estereotipar, tipificar. 
uns mal me fitam: passam, ignoram, e saem murmurando a outros: “vamos”... e como isto ouço! mas, o que significa: “vamos”? é palavra? “vamos”... é braço, dedo, forma, tom, macho, fêmea? outros tentam fazer o mesmo que eu: observar. fazem algo estranho com a parte mais alta do corpo... será que eu, também ao observar, faço mesma posição? murmuram mais: “para mim, é impressionista... mulher nua e não-magra... é belo!” impressionista... seria palavra? o que seria a tal da “belo”? o que mais ouço: “belo”. é palavra? braço, dedo, forma, tom, macho, fêmea?
uns desses amigos fitadores vinha me fitar muitas vezes. eu diria todos os dias, se tivesse tamanha noção do tempo! (não me pintaram um relógio...) muitas vezes, do meu lado oposto, com a aparência sempre esplanada, corpo turvo e límpido, de tons levemente amarelados, “cor-de-pele”, é o que dizem. vinha apenas me fitar, e fazia um movimento estranho de esticar a parte do corpo que abre e fecha ao me contar seus segredos. me contou uma vez que eu lembrava um “pintura impressionista”. o que é isto, impressionista? não sei. deve ser “belo”, pela maneira do fitar e do esticamento... “uma vez li um conto da lygia fagundes telles em que um homem ia todos os dias à uma loja de antiguidades apenas para fitar uma tapeçaria velha, caindo aos pedaços, na qual havia uma pintura de um caçador numa floresta, e um homem em segundo plano parado em meio às árvores, observando o caçador... o homem, ao ver a tapeçaria, se sentia estranho, como se aquela cena lhe fosse familiar... até que um dia ele foi como de costume olhar a peça, quando se viu dentro dela... é o que eu gostaria: venho lhe ver todos os dias, pois quero me ver dentro destes tons tão leves e doces... quero ver-te mais de perto, te ver além de rósea musa”. não apreendi nenhum som que saía dele, mas acho que fiz o mesmo esticamento com a parte do rosto em que meu fitador esticava, pois senti meus tons róseos do corpo ficarem mais quentes. quis murmurar, também, de volta... “o que é musa? e fêmea, ou macho: quê sou?” queria ser fêmea... “fêmea” parece ser mais “belo”, e pela minha experiência nesse lugar parece ser algo que atrai mais fitadores. por algum motivo, algumas vezes me sinto  mais branca, o que acho que quer dizer estar mais próxima do “vamos”... mas, ao ouvir este “vamos”, me sinto perder o “tom”, o “belo”. outra vez ouvi “parece que a moça vai morrer”... acho que me sinto próxima deste som, agora. mas, o que é isto? "moça-morrer”... tá do lado do “belo”, do lado do “vamos”?
só que dessa vez ouvi: “tapeçaria velha, caindo aos pedaços”. mas gosto dessa coisa, "velha". carrega objetividade, me tirando dessa condição de objeto. me faz matizar num não-sei-quê. talvez "sabedoria", como ouvi antes - e soa bem. e essa coisa de "sabedoria" anda me tomando ultimamente. porque hoje não só mais fito, aprendo a descrever figuras, amarrando laços de fita nas cabeças de quem passa.

10 de agosto de 2011

À facínora

és peixe, pois Natureza
és cigarro, pois maquinal
és ausente:
         de filtro
                  de trofil
                           de sinto
                                    de tinto
                                             de perfil!

vê-se racional?!
digo, cara ególatra:
qual ser se tornou! se
        insensível e irracional?!

arrancaste os filtros
        de meus cigarros,
cancereniza-me
         e aos poucos,
                   prazerosamente mata-me

desfaça-me, animal sádico!
dá-me ozo, arranca-me tripas, 
faça-me pele, dente, língua, osso,
        de restos meus faça-te maior gozo!

não mais serei mar
pelo qual tu se cuspiu
         da mais irracional maneira!

                  … mas qual satisfatória morte

9 de agosto de 2011

Mancebia

minha mancebia,
amásia ilícita: Natureza,
dar-me-á crescente prazer

natureza-símbolo,
formas das formas:
esta cerejeira-azeda,
de natureza distintiva
qual flor, és meu símbolo!
teu rosa, fonte de árduo verso
matiz clara, abstração de melancolia

joga-me entre seus ramos, efêmera flor
entre suas pétalas tristonhas passe-me, entre-me!
endureça seus deliciosos e murchos e róseos ovários!
espeta-me com teus filetes, encha tuas anteras e alimente-me!

pós-gozo: tranquilidade da tranquilidade;
senti-lo: tranquilidade incandescente;
pensá-lo: luminosidade tranquila!